Blog do poetador


06/06/2008


                                        ATENÇÃO:

 

TODOS OS POEMAS ESTÃO PROTEGIDOS PELA LEI DOS DIREITOS AUTORAIS

NÚMEROS: 9.609/98 E 9.610/98.

OS PRESENTES POEMAS FORAM REGISTRADOS PELA FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL,

SITUADA NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO.

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h49
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                         UM POUCO SOBRE MIM:

 

 OLÁ, MEU NOME É JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA, O TROPEGADOR DA POESIA. NASCI NA

CIDADE DO SALVADOR, BAHIA EM 1982.

 BEM, AINDA QUE NÃO ME CONSIDERE UM POETA NATO, A SOMBRA DO VERBO ME PERSEGUE E

USO A POESIA COMO UM INSTRUMEMENTO DE CATARSE PESSOAL E

REFFLEXÃO SOBRE O MUNDO.

 FINALMENTE, ESPERO QUE OS MEUS POEMAS NÃO OS ENCARCEREM NA MASMORRA DO TÉDIO E

VOCÊS GOZEM DE UMA BOA LEITURA.             

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h34
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               O CREPÚSCULO DOS DIAMANTES NEGROS

 

A

 

 

Não podemos esquecer

Dos corpos que jazem sem cemitério

Por saber ser hábito o genocídio

De negros norte-americanos em tempos pretéritos.

 

B

 

Não podemos esquecer

Da inerme ordem pacífica

Que vigorava naquela remota província:

Onde, embora se respeitasse as torpes e indignas regras ferinas,

Era muito forte o ódio que na mente dos filhos da tirania Silentemente fluía.

 

C

 

Não podemos esquecer

Das chagas inexoráveis do aparthaid:

O qual até hoje, apesar de oficialmente obliterado,

Continua a mostrar seu gládio nos tribunais

Ao condenar criminosos fabricados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

D

 

Não podemos esquecer

Do homicídio de pessoas injustamente acusadas,

As quais foram mortas

Por um ardil procedente do medo, da aleivosia, da raiva:

Sim, na socapa de um estupro,

Alegado por uma ariana rameira

Vivendo maritalmente,

Jaz a fórmula para acender a pólvora

Promotora da vaga de hecatombes que destroem a convivência

No mundo, então, comutado em oceano-rio-mar segregantemente

Inclemente.

 

E

 

Não podemos esquecer

Do sul estadounidense e dos corpos que jazem sem cova,

Em Housewood, na Flórida.

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h20
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      SENHORA DOS PÍFANOS

 

 

I

 

Senhora, senhorinha:

Idosa, doce velhinha

Que solta pela boca lufada de notas

Com sua flauta nordestina.

 

II

 

Senhora, senhorinha:

Os olhos azul-açucena

Guiaram-na por prolixos caminhos sinuosos,

Sendo-lhe uma poderosa fulgência de fleuma e sapiência.

 

III

 

Senhora, senhorinha:

Obstinada, sábia, aguerrida.

Na verdade, florescência de assente espera pela gloriosa aurora

Que morara com seus filhos numa gruta

Durante a luminosa estada

De uma lua boda de prata

Que tão-só assoma e cintila

No interior da Paraíba.

 

 

IV

 

Senhora, senhorinha:

Desde pequena, envolta pelo cândido véu da sonora harmonia;

Agora, aos 80,

Se tranforma na maestra da orquestra.

Sim, a orquestra. A orquestra de Pífanos.

Por isso e por outros motivos,

Eu digo:

Voe, Voe,

Música em notas que afloram de seu mágico instrumento;

Voe, Voe,

Ressonância-Passarinho. Desejo que sempre caminhe com o vento!

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h19
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             O JARDINEIRO DE NAUFRÁGIOS

 

 

Quereria poder dizer que sou imune

Ao vírus da angústia,

Mas não posso.

 

 

Quereria poder dizer que a imaterialidade dos sonhos

Não me lancina de forma dantesca,

Mas não posso.

 

 

Quereria poder dizer que sou insensível ao medo do fracasso

E do horizonte de vácuo

Que possa se estender ante mim,

Mas não posso.

 

 

Quereria poder não mais colher

Flores de dolência a cada desventura que sofro.

Quereria poder não mais exarar verbos que suscitem

O quase intragável oceano da ausência,

Mas, por favor, não posso, entenda!

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h16
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                         ANABIOSE DA PAIXÃO

 

 

Enquanto ergue-se em mim

Um monólito de bem-querência á solidão,

Lá fora a rua é quase calmaria

Pois o rádio ---- ainda que

Ligado ---

Ajuda a compor o quadro

Do augusto mutismo altruísta, sereno,

Sábia atmosfera de reflexão recrudescendo.

 

 

Após tantas e tantas esperas

Pela ignescente e fulgurosa

Aurora boreal, sem

Que houvesse uma sequer

Negativa ou positiva resposta,

Apaguei a chama da esperança:

Cerrei-lhe a porta!

Preferi o porto seguro do vácuo

A prosseguir contumaz

Em minhas andanças

De exitoso náufrago.

 

 

Porém a voz da minha consciência

Diz que é cedo demais

Para eu relaxar,

Me deixar entregar ao embalo

Dos hartos e meigos braços

Do réquiem do apaziguamento

No mar da expansão engolfado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bem da verdade,

Ela me alerta:

Diz a mim que o náufrago

Não se dirigiu ás estâncias

Do reino do Morfeu perpétuo.

Não,

Ela me diz que ele escapou

Das garras do limbo da letargia eterna

No momento em que minha visão-caminho

Singrou o caminho da jóia

Divagativamente

Ametista-Névoa

Que no meu jardim aflorou áquela hora.

 

 

Sim, um copo-de-leite roxo

Libertou-me, de novo,

Do cárcere da benfazeja embriaguez voluntária.

 Sim, um copo-de-leite roxo foi o suficiente

Para revelar que o crepúsculo

Definitivo da chama, na verdade,

Era o ouropel da morte:

O coma, o coma!

 

 

Ah, mais que dolente engodo:

Agora é que descubro

Que meu monólito de bem-querência á solidão

É um dantesco absurdo!

 

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h13
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  ESCRIBIR EN  CIELO DE AMARGURA

 

 

 

 

Sou aquele que bivaga sobre gases de desejo e lágrimas de Concreto

Sou aquele que jaz na cama da ultra-abstrata fome absoluta

Sou aquele que sempre fica á margem do pleiástico santuário

Sou aquele que carrega sobre o dorso do cérebro inúmeras

Chagas de inépcia

Sou aquele que a monótona verbena perpétua encarcera

Sou aquele cuja estrada é pavimentada pelo vórtice da miragem

Finalmente eu sou aquele que sempre está fadado a interromper

Sua viagem.    

 

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h12
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                      A SOFREGUIDÃO DO NÃO-POETA

 

 

 

Quero ser um artesão de palavras:

Duras, dúcteis, viscosas, herméticas,

Diáfanas, sinceras, profundas, singelas, iluminadas.

Eu quero é ser poeta

Pois este erige contínuas miríades de estrelas

Sobre o céu de eternas noites enluaradas!

 

 

Quero poder afluir,

Quando me der na telha,

Ao feérico lago da espontânea

Língua do povo:

E, ao libar da sua água,

Expelir-lhe as impurezas,

Que são as chagas, as mazelas,

O carcereiro da igualitária opulência,

Para deixar que viva livremente

O florescer incontinenti

De castelos e mais castelos

Da alacridade e dos felizes sortilégios

Que emanam do eufemismo

Da escrava gente.

 

 

 

Quero degustar

O vinho tinto da galharda palavra

A fim de homenagear a imponência

Que cimenta os mínimos e máximos halos

Da natura realeza.

 

 

  

 

 

Quero ser condigno

Quero ser acuidade e sageza

Quero ser humildade, vivacidade, gentileza

Quero ser feiúra e esbelteza

Quero ser a inane importância

Quero viver perpetuamente

                                          [ No jucundo reino

                                             De ingenuidade

                                             Das crianças

Quero ser ventania, poesia, proximidade, distância

Quero ser o instante

                                [No qual se encerra o segredo

                                 Da segurança, da solidão, da tristeza,

                                 Do medo, da coragem, da alegria,

                                 Da repreensão, da recompensa, do desejo

Quero ser a imensidão

Quero ser pequeneza

Quero ser a imperfeição em evidência

                                                              [Pois a perfeição

                                                               É um atroz sofisma

                                                               Da humana cabeça

Quero ser a multidão

Quero ser o átrio do sol solitário da certeza

Quero ser a rocha, a rosa, o roxinol, o girassol, a orquídea, a açucena

Quero ser a ametista, poeta em perene florescência!       

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h08
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                                             SENHORES DO AR URBANO

 

 

 

Sobre horizontes de ferro,

Vicejados no solo do ranceniásico reino da garoa,

Trabalham filhos errantes de todos os brasis:

São pássaros que deixam seu ninho natal

Para erigir castelos, escudos e auréolas de aço

De maneira a fortalecer, guarnecer e ornamentar

As nossas selvas de pedra, além de derramar

Infindáveis córregos de vis-metálicas alegrias

Na boca dos estupradores da Rainha das pátrias sem soberania.

 

 

É de se impressionar a tamanha intrepidez:

O medo da fome, da desonra, da contemporânea languidez

É o combustível para que estes Homens

Suplantem o torpor, os soturnos

Pensamentos 

E queiram ser a companhia íntima do cume maior de todas as montanhas,

Inclusive as de cimento:

Quem é ele?

O Firmamento!          

 

 

Ah, agora sim, eu posso dizer com transbordo de contentamento

Que de fato existem grandes criaturas,

Pois naquelas humildes almas,

A minha medíocre e vã pessoa

Contempla a fronte de fluorescência dos manarcas das augustas alturas  

Em evidência.          

        JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 10h06
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                               NAMORANDO O VAZIO

 

 

A luz, que incide sobre os olhos meus,

Segue sua rota até desembocar no chão.

Não, nada mais opaco que o chão:

Nele, a luz não transpassa. Não logra,

Não chega a seu âmago. Não, ela não lhe desvenda e lhe penetra o Sortilégico arcano, sicariamente entregue á espessa neblina

Do preconceituoso obscurecimento nefando.

Não, ela naufraja, fracassa na empresa de conhecê-lo: conhecer

A real substância de seu jaez incógnito, misterioso,

Insondável, denso, interminável e invisível nevoeiro!

 

 

Não, nada além deste sentir austero e gélido

Não, nada além desta visão insossa, estática, extática, estéril

Não, nada além de um olhar fixado na magnética superfície

De horizontes inanes de descobertas paralisantemente catarticas,

Etéreas e digressões a plagas, que aos meus olhos sejam inéditas. 

Ah, afinal, nada mais além do que esta angústia no olhar,

Sobretudo quando queda imerso em mar de vãs esperas, desertos,

Frustrações materializadas em vagalhões de maravilhosos sonhos:

Oh, infelizmente, a serem derramados num imensurável calderão De lancinantes desejos enérgicos, medonhos!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sim, porém, na demora do olhar,

Degusto o chão. Sinto o gosto do cárcere, das chagas,

Do corte na carne feito pelo duro aço da lâmina da navalha.

Sinto a velocidade do sangue furtivo, a sua dinâmica efusão que Grassa-me pelo idealístico corpo letalmente ferido!

Sinto o plasma a prorromper do viés interno da psíquica máquina,

A escorrer pela pele da ideologia minha. Sinto sua mortal Laceração lírica.

Ah, essa é a impressão que eu tenho

Toda vez que me pego a contemplar o chão: chão do desespero!

Desespero que nasce do rancor de viver em silenciosa descrença

Contínua de que me advenham melhores e auspicosos momentos Na vida. E que estes possam permear quase vitaliciamente o fluxo Da minha hoje rotina mecanicista, da minha hoje rotina

Em jazigos da Metafísica metida, da minha rotina mamorando

A face aparente do chão da minha existência egoísta. Namorando,

Porfim, o horizonte em que não se consegue fazer penetrar-me a Vista, carente de aguerridas filosofias. Carente mesmo de suas dialéticas vísceras impressas na massa da universal filantropia. 

 JESSÉ BARBOSA DE OLVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 09h50
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                                   REBANHO

 

 

Ali vão a reluzir pecuaristas ditosos,

Algozes da burilagem,

Deixam a marca dolorosa de sua propriedade

Nos gados que criam, compram, vendem, tocam

Com despreocupada atrocidade.

Não, não! Esse mar bovino, na verdade,

São pessoas que jazem presas

Em currais, onde morrem, desesperadas,

As numerosas nuanças da razão,

Que jamais pôde sentir em sua fluida face

O tépido lume da liberdade:

Face esta ancorada na lírica flauta de ondas

Turbulentas ás quais cimentam e tapeteiam

O âmago de tão expiado coração.

No entanto, moldada, desde muito, á maneira da tirania,

A pobre gente em sua chagásica compleição

Bebe a água do masoquismo. Então se faz masoquista!

Sim, tão acostumadas, elas alacremente bradam:

--- Pois não, meu amo! Sirva-se a seu bel-prazer,

Pois somos seus fiéis bois-escravos:

Seja você Nero ou Alexandre Magno.

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 09h47
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                                              FLOWER OF DARK JOY

                                               (ODE Á BANDA PEARL JAM)

 

 

 

A flor da alacridade soturna

Descerra-se  na tez da minha mente

Quando ouço a melodiosa estrada de guitarras

Emitir um suave som estridente.

 

 

Ele percorre todo o duto existente em meu corpo

Ao entranhar-se no sangue cálido,

Tornando-o magma, ígneo, escaldante lava,

A energia do sol, a reencarnação do fogo!

 

 

No entanto, como em contraponto,

A rede de pêlos, que envolve a derme,

Fica ultra-eriçada como se estivesse

Recoberta por um denso fluido de água gélida, quase neve.

 

 

As letras são lufadas de dor

Que irrompem-me a córnea, a retina, os neurônios:

Transformam-me os pensamentos

Em cristalinos espelhos,

Onde posso contemplar a aura

Do verdadeiro eu de uma considerável parte dos homens:

Uma vez lá, me deparo com um imensurável

Deserto. O deserto do amor pela sua acolhedora casa

E por seus irmãos de ventre,  berço, última morada.

 

 

A voz de Ed me enternece:

Parece que dela emana

Um brado que é dele e o lacera,

Todavia, é de todos aqueles que sofrem

De um falso lume do amor pessoal, altruísta ou magnânimo.

 

 

 

 

O seu canto é depressivo:

A depressão é uma reação

Á onipresença onipotente da impotência

Que o trucida por não enxergar o punhal do girassol

Para lutar contra a vil-metálica opressão atroz e ferina.

 

 

Ah, ainda que não seja adepto da psicodelia,

Quando ouço a melodiosa estrada de guitarras,

Me entrego ás orquídeas alucinógenas

Que, na transparência da imagem,

Me revelam a cor da verdade.

Então me sinto absorver pelo rei dos vácuos,

E depois que a sua presença se dissolve,

Brota em mim a dor do eterno naufrágio

Por saber que minha consciência sabe

Que a única arma que tenho para a contenda

É ser um cavaleiro inconformado.

 

 

Ah, quando ouço a melodiosa estrada de guitarras

Emitir seu suave som estridente,

Conheço a natureza da dor

Que ecoa na alma das oprimidas gentes

Quais no torpe cosmo de Pandora

Estão aos montes,

São contínuas enchentes caudalosas;

E n’alma de mim mesmo, oceano do nada na História.

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 09h45
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05/06/2008


                             LEÃO COSMOPOLITA

 

 

Voraz deveras é a leonina fome:

Quanto mais se sacia, mais deseja, mais come.

Ela vaga pelo antrópico cosmus demandante:

Demandante de indulgências que lhe majorem a vontade

De degustar horizontes de manjares incessantes, espetaculares!

 

 

Porém, ela nutre predileção por alimentos tropicanos:

Sim, aqueles mesmos cujos cardápios pletóricos e jucundos

São conhecidos pelo nome de pratos latino-americanos.

 

 

Ah, a comida,

A comida cujo degustar é gostoso e rotundo...

Ah, a comida,

A comida cujo prazer total

É quando a visão palata e saboreia o plenilúnio...

Ah, como é boa a comida do Terceiro Mundo!

 

 

Sim, certamente, a leonina fome é mesmo insaciável:

Tanto que carcome cardápios que outrora

Vangloriavam-se em gozar de reserva inesgotável.

Não satisfeita, ela quer porções mais caudalosas, absurdas,

Altruístas. Sim, com efeito, é assim a voracidade incompassiva

Que reveste o corpo, a alma, a pele da fome do leão cosmopolita.           

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 11h08
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                                             MARISQUEIRAS

 

 

 

Quase no limiar da manhã,

Sofredores semblantes de mulheres denodadas

Partem de suas calorosas vivendas infaustas

Rumo ao encontro de mais um árido dia de lavra.

 

 

E que lavra dura, pesada, prolífico jardim de sáfaras:

Colher no Atlântico mar da Goiânia pernambucana

Pérolas culinárias que hão de extasiar o paladar

Daqueles providos de algibeiras

Parcamente ou demasiadamente

Magnânimas,  exuberantes cataratas do Iguaçu e do Niágara,

Imponentes cordilheiras dos Andes e do Himalaia!

 

 

Ah, o quinhão que recebem

É torpe, infame, aluvião de vexames nada breves:

Uma ignóbil monção de atrozes intempéries ultrajantes

Que as afoga no sádico oceano de dores

Oclusas no reino do pranto exangue,

Salpicdas de alamedas da piedade serelepe e incessante.

No entanto suplantam a humilhação

Com o fulgor da aura da dignidade,

Que aflora da imagem de suas nordestinas cabeças,

Levantadas ao girassol-firmamento em amplidão na verdade.

 

 

 

Sim, e lá vão elas, as catadoras de mariscos,

Com seus filhos lhes fazendo companhia,

Depois de um dia pejado de faina cansativa

E humilde dinheiro na palma das mãos,

Voltar, finalmente, para o aconchego

De seu exíguo e íntimo torrão.

 

 JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

 

 

 

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 11h07
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                                                    AQUARELAS DE MIM

 

 

Erijo monólitos de mim quando escrevo

Erijo exílios em mim quando escrevo

Erijo céticas catedrais de paz em mim quando escrevo

Erijo no chão de cimento da minha verve

Girassóis do mágico vento quando escrevo.

 

 

Faço do silencio interno

A mais fragorosa música quando eu escrevo

Faço da crédula e velhaca ressonância dos

Corais de zagais modernos

Estro para revelar o sabor malsão de seu mel malévolo

Quando escrevo.

 

 

Pincelo alcovas para o vácuo dormir comigo

Quando escrevo.

Pincelo AKs-47 para soçobrar os majestosos castelos da demagoga e harpíaca

Eloqüência quando escrevo.

Pincelo uma miríade de pernas sôfregas por cosmopolismo

Quando eu escrevo.

Pincelo heterônimos bidimensionais

Quando escrevo.

Degusto o sol da catarse

Ao pincelar a mim mesmo quando escrevo.

 

 

Sou disco bicromático quando escrevo.

Sou relva, revoada e guepardo quando escrevo.

Sou faca cega, lâmina de dois gumes e pedra lascada quando escrevo.

Sou água-viva, letargia e águia quando escrevo.

Sou aquarela sem pais, aquarela sem limiar e aquarela sem medo.

Afinal, quando eu escrevo,

Sou aquarela inerme, aquarela do caos, aquarela indigente:

Sem nome, sem baile, sem lápide, sem brumas ou testamento!

 

JESSÉ BARBOSA DE OLIVEIRA

Escrito por jessé barbosa de oliveira às 11h04
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